Introdução A literatura sobre comércio - sobretudo de produtos industrializados -considera como uma das características relevantes das últimas décadas o comércio internacional de produtos pertencentes a mesmas classificações. O que parecia ser uma heresia à luz da teoria convencional foi sendo crescentemente aceito como um fato indiscutivel.
As explicações para a ocorrência desse tipo de intercâmbio estão relacionadas com o comportamento dos consumidores em cada país, com as estratégias das empresas produtoras, e com a existência de diferenciação vertical (demanda variada em função da qualidade dos produtos e de níveis distintos de renda dos consumidores) e/ou diferenciação horizontal (características diferenciadoras dos produtos).
Em termos geográficos, é conhecido que a incidência de comércio intra-setorial é elevada nos países industrializados, sendo mais intensa na Europa Ocidental do que em qualquer outra região, provavelmente em função da proximidade dos níveis de renda nos diversos mercados nacionais (1).
É igualmente reconhecido na literatura que processos de integração regional criam condições favoráveis para esse tipo de intercâmbio, sendo frequente encontrar-se elevações do índice de comércio intra-setorial associadas à intensificação de exercícios de integração.
De um modo geral, existem argumentos em favor da intensificação desse tipo de comércio. Por exemplo, quanto maior o intercâmbio de tipo intra-setorial menores os custos de ajuste da estrutura produtiva nacional em resposta a variações do comércio externo, uma vez que fatores de produção desempregados em um dado setor podem vir a ser absorvidos por outros segmentos no mesmo setor, a custos mais baixos de treinamento. A incidência de complementaridade produtiva pode igualmente reduzir a probabilidade de imposição de barreiras comerciais às importações.
No caso dos países da América Latina a evidência disponível indica que o comércio de tipo intra-setorial tem aumentado em proporções expressivas desde a década passada, embora sua importância relativa em termos do comércio total dos países da região seja ainda inferior à observada nos países da OCDE, sobretudo os europeus.
O Brasil é um bom exemplo dessa evolução. As indicações disponíveis apontam para uma importância crescente do intercâmbio intra-setorial, e algumas estimativas associam a consolidação do Mercosul à criação de condições propícias para sua intensificação.
Para esta nota técnica foram estimados índices de comércio intra-setorial para as relações comerciais do Brasil com diversos países. A importância dessa quantificação está associada à apreciação da trajetória no tempo desses indicadores, identificando-se eventuais peculiaridades associadas à participação do país no Mercosul.
(1) Alguma evidência empírica a esse respeito é apresentada em R.Baumann (1994), 'Intra-Industry Trade: A Comparison Between Latin America and Some Industrial Countries', Weltwirtschaftliches Archiv, Band 130, Heft 3