(21 de maio, 2008) Ir ao médico ou receber uma receita são fatos que, por sua cotidianidade, não parecem ser formas de segregação cultural. Entretanto, esta situação afeta os povos primitivos da América Latina que, devido a sua origem cultural, têm o acesso a um sistema de saúde que se adapte a seus costumes e conhecimentos prejudicado.
O concurso "Experiências em Inovação Social", desenvolvido pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, CEPAL, com o apoio da Fundação W.K. Kellogg, identificou três modelos de saúde comunitária que expressam a diversidade cultural como processo evolutivo e fonte de expressão, criação e inovação. Os projetos "Saúde e Educação entre os Índios Hupdäh" no Brasil, "Programa de Saúde Intercultural - Modelo de saúde complementar Williche de Chiloé", no Chile, e "Fortalecimento e Promoção da Medicina Tradicional dos Povos Pijao e Paéz del Tolima", na Colômbia, têm sido efetivos na promoção do acesso a uma saúde que respeita a língua, os conhecimentos e as tradições culturais dos povos primitivos.
A alfabetização mútua tem pontes
O projeto "Saúde e Educação entre os Índios Hupdäh", promovido pela Associação Saúde Sem Limites (SSL), no estado do Amazonas, parte de uma dura realidade: os Hupdäh são um grupo excluído, com potencial e possibilidades de desenvolvimento reduzidas. A principal limitação encontrada é o fato de não falarem português, situação que traz grandes dificuldades para a atenção à saúde e à educação.
Em resposta a esta situação, em conjunto com a comunidade e respeitando a diversidade cultural, desenvolvem um modelo de atenção apoiado na criação e ensino do alfabeto para a língua indígena (Hup). Diante disso, os indígenas podem estudar sem perder sua cultura e os profissionais podem se comunicar com eles para, por exemplo, prescrever receitas médicas escritas em seu próprio idioma.
O projeto reconhece e se adapta à cultura, permitindo a formação de promotores indígenas de saúde capazes de dar atenção básica a enfermidades não conhecidas pela medicina tradicional da comunidade e que causam grande impacto na população. As atividades de prevenção e atenção à saúde, por sua vez, permitem superar a exclusão geográfica e social da população Hupdäh.
Diálogo intercultural para a saúde
O modelo de saúde complementar "Programa de Saúde Intercultural - Modelo de saúde complementar Williche do Chiloé" tem como meta incorporar o enfoque holístico e as práticas de saúde consistentes com a cosmovisão do Povo Williche no sistema de saúde pública da província, promovendo uma maior satisfação das comunidades indígenas.
Recentemente foi firmado o primeiro convênio entre o Conselho Geral de Caciques Williche de Chiloé e o Serviço de Saúde de Chiloé. O acordo foi assinado pelas autoridades de ambas as entidades da localidade, ao sul do Chile, e establece os planos de trabalho para o ano de 2008.
O Cacique Mayor de Chiloé, Armando Llaitureo, afirmou na ocasião que "é um tempo especial porque o processo de mudanças nas políticas de saúde seguem tanto para a província como para as comunidades indígenas". O Dr. Octavio Segura, Diretor do Serviço de Saúde provincial, por sua vez, declarou que "o Conselho de Caciques de Chiloé há anos vem trabalhando para valorizar a medicina indígena, o que representa uma colaboração significativa para a melhoria da saúde na região".
Um modelo bicultural de saúde
"Fortalecimento e Promoção da Medicina Tradicional dos Povos Pijao e Paéz do Tolima" é um projeto promovido pela Asociación de Cabildos y Autoridades Tradicionales del Consejo Regional Indígena del Tolima (CRIT), cujo objetivo é o fortalecimento do modelo bicultural baseado na medicina tradicional e no sistema geral de saúde, orientado à prevenção e ao serviço integral para a população.
A proposta tem o reconhecimento pleno da medicina tradicional, por promover o desenvolvimento de hortas de ervas medicinais, a preparação de medicamentos tradicionais e a atenção médica de acordo com a cosmovisão indígena. Além disso, o projeto possibilitou o desenvolvimento e a consolidação de uma escola para formação de promotores e iniciados (médicos tradicionais) para ajudar a comunidade. O fortalecimento da medicina tradicional é promovido pelos jardins botânicos, encontros de médicos tradicionais e processos de formação de gestores culturais para difusão nas comunidades.
A criação de um modelo bicultural para atender a problemática da saúde do povo indígena Tolimense alcançou resultados positivos como, por exemplo, a ampliação da cobertura para a população indígena nos centros de atenção médica e nos hospitais, doação de medicamentos para os enfermos e oficinas de promoção e prevenção.
O programa "Experiências em Inovação Social", realizado pela CEPAL, com apoio da Fundação W.K. Kellogg, foi aberto em 2004, e identifica programas inovadores de desenvolvimento social, para difundí-los e contribuir para a melhoria de práticas e políticas em benefício da população mais pobre da América Latina e do Caribe. Até hoje foram apresentados 4.400 projetos e seu quarto ciclo já foi iniciado.